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     Brega: Uma expressão popular

 

Coração partido, traição, apelo sexual e amores não correspondidos, misturados a uma boa dose de arranjos dançantes são algumas das marcas do ritmo que já virou expressão cultural em Pernambuco, o brega.

 

O estilo surgiu no final da década de 60 e início dos anos 70 ganhando, popularidade nas vozes de artistas renomados como Agnaldo Rayol, Odair José e o rei do brega, Reginaldo Rossi. Colhendo inspirações nas composições românticas de cantores internacionais como o lendário Elvis Presley, o brega, inicialmente, se estabilizou como um ritmo que cantava as dores dos apaixonados.

 

Além das letras e do ritmo dançante, o brega envolve também uma estética de vestimentas extravagantes, muitas das vezes associado ao “cafona”, e a um comportamento boêmio e romântico. Por essas características, o brega passou a ser rotulado pelo senso comum com a imagem  de um estilo musical de “baixa qualidade”.

 

Segundo o professor do Departamento de Comunicação (UFPE) e pesquisador do movimento brega Thiago Soares, a noção do brega como um estilo musical “de segunda” se dá principalmente pela origem geográfica do brega (as periferias nordestinas) e pelas pessoas que produzem e consomem esse estilo musical - classes baixas e negras ou miscigenadas. Por esta razão, o movimento ganhou o desprezo das classes sociais elitizadas, que são as pessoas que costumam determinar o valor e a importância de determinado capital cultural, expressão cunhada pelo sociólogo francês, Pierre Bourdieu.

 

Ainda segundo Thiago, existem três grandes eixos estéticos do brega. O primeiro  refere-se à figura masculina, ainda vinculada à Jovem Guarda e a seresta; seguido da aparição das vozes femininas no movimento; e por último, o vivido hoje com a explosão do brega funk, que ascendeu ao cenário nacional através da imagem da adolescente pernambucana Mc Loma.

 

 

Centenas de casos de amor...

 

Inicialmente as letras de brega eram sempre narradas através da ótica masculina, exemplos não faltam. Em “Garçom”, um dos maiores clássicos do brega, Reginaldo Rossi canta a mágoa de ter sido deixado pela mulher amada, receita repetida em outras canções do cantor, como na icônica “Leviana”. Em “Eu não sou cachorro não”, Waldick Soriano desabafa e conquista diversos fãs que cantam a plenos pulmões a dor do desprezo em não serem correspondidos. Mas se engana quem pensa que o brega é só lamento. Em “Fogo e Paixão”, Wando se declara e vibra o amor de um casal: “Você é sim, e nunca meu não. Quando tão louca me beija na boca, me ama no chão.”

 

Pare de tomar a pílula!

Durante os anos 70, o gênero conquistou uma parcela da sociedade que não tinha poder aquisitivo para consumir produções artísticas da classe média. Dessa forma, ao analisar as letras dos bregas de sucesso desta época, percebe-se a presença de temas que confrontam o contexto altamente conservador e autoritário vigente nos anos de ditadura.

 

Em “Pare de tomar a Pílula”, de Odair José, o artista trata de uma questão considerada tabu na sociedade brasileira. No contexto em que a música foi lançada, o Governo fazia campanhas em prol da pílula anticoncepcional, mensagem oposta da interpretada por Odair na canção. É válido analisar que embora a música tivesse cunho crítico-social, a canção trata de um sujeito masculino exercendo a relação de poder dentro do relacionamento “Você diz que me adora, que tudo nessa vida sou eu. Então eu quero ver você esperando um filho meu, pare de tomar a pílula”, afirma a canção. Esta visão patriarcalista é reiterada em diversas letras, uma espécie de violência simbólica, uma vez que eram as mulheres o principal público do artista que ficou conhecido como “o terror das empregadas”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Letras, melodia e expressão popular

O mix de arranjos que englobam diversos ritmos como bolero, lambada, merengue e até batidas de funk são responsáveis por conduzir composições que estão eternizadas na cultura de Pernambuco. O estilo popular e acessível, está sempre aberto para novas personalidades que, cada vez mais, ganham fama e popularidade.

 

Hoje, o brega ganhou nova roupagem, estilos e mensagens, um dos maiores avanços se deu com a presença significativa das mulheres em diferentes segmentos do brega. O preconceito com o estilo também tem sido ressignificado, embora ainda muito presente. Um exemplo disto é que, em abril de 2017, a Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) aprovou o projeto de lei nº 1176/2017, responsável por elevar o ritmo à categoria de expressão cultural de Pernambuco.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Deputado Edilson Lima, autor do projeto da lei, ao lado de grandes nomes do brega como Michelle Melo e Priscila Sena.
Foto: Divulgação
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